Pular para o conteúdo principal

"Temer precisa comprovar inocência para ter autoridade"

Defensor da saída do PSDB do governo, o presidente interino do partido, senador Tasso Jereissati (CE), diz que o presidente Michel Temer precisa "comprovar sua inocência" rapidamente para reconquistar autoridade na crise política aberta pelas acusações feitas na delação da JBS.
Fotos públicas: Agência Brasil/Antônio Cruz
Folha de S. Paulo - Talita Fernandes e Bruno Boghossian
Em entrevista à Folha, o senador tucano insiste que o PSDB deve desembarcar do governo para mudar um sistema político que considera "podre". Embora o partido tenha decidido, em reunião na segunda (12), manter o apoio a Temer, Tasso diz que a sigla segue discutindo o possível rompimento.
Para ele, é um "delírio" e um "erro" decidir apoiar ou não o governo Temer pensando em aliança para 2018.
*
Folha - Como o PSDB vai se posicionar em relação à denúncia que deve ser oferecida contra Temer?
Tasso Jereissati - A crise não vai se aprofundar apenas por causa da decisão eventual da PGR. Estamos vivendo um sistema político que apodreceu e morreu. A corrupção que era de batedor de carteira virou de quadrilhas internacionais.
A Câmara precisaria autorizar um processo contra Temer. Qual será a posição do PSDB?
Não há decisão, mas com certeza os deputados vão agir como juízes e votar de acordo com sua consciência, não de acordo com orientação.
Se o sistema político está podre, por que o PSDB continua num governo desse sistema?
Ninguém falou em romper com o governo Temer, em entrar na linha do PT. Estamos dentro desse sistema que apodreceu e a saída só se dará por meio de reformas. Estar dentro do governo significaria continuarmos dentro de um sistema que temos que mudar. Não temos condições éticas e morais para tentar mudar isso estando no governo.
O sr. quer dizer que a decisão do partido –de permanecer no governo– não é adequada?
Ficar no governo em si é detalhe. O que é importante é que precisamos fazer uma autocrítica profunda, reconhecer que a população não aguenta mais o que está aqui.
O sr. continuará defendendo que o PSDB saia do governo?
Sim, mas isso não é pedir "Fora, Temer", não é pedir o impeachment. Eu acho difícil que o presidente saia.
Temer tem condições éticas de continuar governando?
Não tenho condições de dizer se ele é culpado ou não, mas tenho condições de dizer que, praticamente com todo o seu gabinete preso, processado ou pego em flagrante, e as próprias gravações com ele, ele precisa muito rapidamente comprovar sua inocência para ter autoridade suficiente para levar esse momento difícil.
O presidente se recusou a responder a perguntas da PF...
Não vou julgar cada ato do presidente. É preciso reconquistar credibilidade. Quanto mais rodeios e omissões, mais essa falta de credibilidade vai se aprofundar.
Em que momento o PSDB vai precisar reavaliar seu apoio?
A reavaliação já está sendo feita. Estamos atrasados.
O sr. diz que o PSDB não quer "Fora, Temer", mas quer recorrer da decisão do TSE que o livrou da cassação.
Demos início a esse processo, passamos anos no microfone dizendo que a eleição foi financiada por corrupção com dinheiro público. Então, vamos recorrer, sim.
Mas esse recurso pode ter um efeito prático, que é a cassação do presidente.
Se a Justiça chegar à conclusão de que houve [abuso], que se cumpra a lei.
A preocupação eleitoral influenciou a decisão do PSDB de ficar no governo e preservar uma aliança com o PMDB?
Quem tiver alguma atitude pensando na eleição de 2018... Não é um sonho, é um delírio.
Seu nome surgiu em articulações para suceder Temer em caso de eleição indireta. O sr. pretende se candidatar?
Eu seria irresponsável se colocasse isso em pauta.
A delação da JBS atingiu em especial o PSDB dado o envolvimento do senador Aécio Neves.Ele deve deixar o partido?
Ele tem direito de defesa. Ele se afastou, está vivendo momentos muito difíceis, principalmente com a prisão da irmã dele, que, a meu ver foi uma brutalidade –como eu acho que uma série de abusos também foram feitos.
A Lava Jato comete abusos?
A Lava Jato está fazendo um trabalho excepcional, colocando a nu toda essa podridão do sistema político. O problema é que no meio disso, não só na Lava Jato, existem abusos.
É preciso impor limites?
Há excesso de interferência do Ministério Público e do Judiciário no Legislativo e no Executivo. Mais do que isso, essas prisões... Sou a favor da delação premiada. Sem ela, não teríamos descoberto uma porção de coisas, mas a questão da JBS, preparar delação em troca de esquecer pecados de 30 anos, é um acinte.
Muitos tucanos dizem que Aécio foi vítima de uma armadilha. O sr. concorda?
Uma pegadinha, com certeza. Foi montado. Agora, isso não o inocenta totalmente, porque foi montada uma armadilha e ele caiu. Tem que averiguar quais as razões que teve para ele cair –e é disso que ele está se defendendo. 
http://www.blogdomagno.com.br/?pagina=2

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mapa das facções em presídios brasileiros

'Fi-lo porque qui-lo': aprenda gramática com frase histórica de Jânio Quadros

FI-LO PORQUE QUI-LO                       Vamos lembrar um pouco de história, política e gramática?                     O ex-presidente Jânio Quadros gostava de usar palavras difíceis, construções eruditas, para manter sua imagem de pessoa culta. Diz o folclore político que, ao ser indagado sobre os motivos de sua renúncia, em 1961, teria dito: "Fi-lo porque qui-lo".                     Traduzindo para uma linguagem mais acessível, mais moderna, ele quis dizer "fiz isso porque quis isso", ou, simplificando, "fiz porque quis".                     Esse "LO" nada mais é que o pronome oblíquo "O", que ga...

O milagre do Natal de 2017

Vinicius Torres Freire – Folha de S.Paulo "84 SERÁ igual ou pior que 83", dizia a manchete desta  Folha  no Natal de 1983, baseada em pesquisa com empresários. O Brasil vivia o pior triênio de recessão do século. Em 1983, a economia encolheu 2,9%. No entanto, em 1984, cresceria 5,4%. Um grande erro feliz de previsão. Pode acontecer em 2017? Hoje, dia de festa, vamos mudar um pouco de assunto. Vamos falar mais do espírito dos Natais de crises passadas. "Henry Ford confia num próximo melhoramento da situação econômica" era a primeira notícia da "Folha da Manhã" do Natal de 1931, outro fim de triênio triste da economia. Ford errou. A economia americana melhoraria apenas uma década depois, na Segunda Guerra. "Várias opiniões favoráveis à Constituinte" era a manchete política. O Brasil vivia sob o governo provisório da Revolução de 30. Golpe? Divertida mesmo era a publicação de mais um capítulo inédito de "Viagem ao Céu", de Mo...