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O milagre do Natal de 2017


Vinicius Torres Freire – Folha de S.Paulo
"84 SERÁ igual ou pior que 83", dizia a manchete desta Folha no Natal de 1983, baseada em pesquisa com empresários. O Brasil vivia o pior triênio de recessão do século.
Em 1983, a economia encolheu 2,9%. No entanto, em 1984, cresceria 5,4%. Um grande erro feliz de previsão. Pode acontecer em 2017?
Hoje, dia de festa, vamos mudar um pouco de assunto. Vamos falar mais do espírito dos Natais de crises passadas.
"Henry Ford confia num próximo melhoramento da situação econômica" era a primeira notícia da "Folha da Manhã" do Natal de 1931, outro fim de triênio triste da economia. Ford errou. A economia americana melhoraria apenas uma década depois, na Segunda Guerra.
"Várias opiniões favoráveis à Constituinte" era a manchete política. O Brasil vivia sob o governo provisório da Revolução de 30. Golpe?
Divertida mesmo era a publicação de mais um capítulo inédito de "Viagem ao Céu", de Monteiro Lobato, do Picapau Amarelo. Na página seguinte, uma cronista fazia troça de Warchavchik e da arquitetura modernista paulistana, de casas sem chaminés: por onde entraria "Papá Noel"? "Fizeram da habitação um prolongamento do rythmo mechanico da actualidade."
Os anos 1929-1931 foram o quarto pior triênio recessivo desde que se tem registro de contas de PIB (a partir de 1901). No período, a renda (PIB) per capita encolheu 7,9%.
Neste triênio 2014-2016 devemos encolher 9,2%, segundo pior resultado da história. Nos anos da desgraça de Collor, a baixa acumulada foi de 8,4%. No triênio 1980-1983, o pior de todos, 12,1%.
As manchetes da última semana de 1983 eram quase todas para as Diretas-Já. No dia de Natal, Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, "Senhor Diretas", se dizia candidato apenas nas diretas, pois o "Colégio Eleitoral não tem legitimidade" —a discussão sempre volta.
Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-arcebispo de São Paulo, anunciava a criação de mais 1.200 comunidades eclesiais de base, onde o "povo busca esperança e solução para seus problemas".
O Brasil de 1983 era ainda muito pior, em termos sociais e econômicos. O rendimento por pessoa equivalia a metade do que é hoje.
Os salários caíram muito mais naquela recessão do que nos anos desta nossa nova desgraça.
Havia crianças com desnutrição grave, "africana", na zona leste da rica São Paulo (eu vi). A polícia ameaçava encontros das comunidades eclesiais (eu vi).
Havia também mais esperança, naquele fim de ditadura. Tratava-se de reconstruir ou, melhor, de inventar um mínimo de vida civilizada. Agora, faz pelo menos meia dúzia de anos, tratamos de destruição: do convívio democrático, da economia.
Na véspera do Natal de 1992, a manchete era "Consumo cai 20% em 92". Mais divertida era a submanchete: "Papel do Estado divide Fiesp" (sobre a liberalização de Collor).
Não mudou tanto assim. Fiesp ou assemelhados ainda querem dinheiro barato do BNDES, subsídio da sociedade, e fazem campanha contra impostos. O povaréu
paga, "business as usual".
Enfim, depois de cada triênio recorde de recessão, em 1932, 1984 e 1993, a economia cresceu com força, mesmo com problemas "estruturais". Seria milagre se acontecesse de novo em 2017. Pelo menos, vamos torcer para errarmos muito nas previsões. 
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