Nova denúncia de Janot é pequena aula da história política recente do país


Rudolfo Lago - Blog Os Divergentes
Se há provas, se elas são suficientes, se sustentam um processo, isso será assunto para advogados, juízes e ministros da Suprema Corte. E para deputados, já que cabe a eles autorizar ou não se a denúncia terá sequência agora ou somente quando Michel Temer deixar de ser presidente, dado o foro especial. Como narrativa do ponto de vista político, porém, a nova denúncia contra o presidente da República é uma boa aula sobre a história das relações de poder no Brasil desde o início do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Relações que já foram tema de outras conversas, a última aqui.
Janot diz na denúncia que o PMDB foi galgando mais espaço a partir de 2006, no segundo governo Lula. Na verdade, é um processo que se inicia um pouco antes. Artífice principal da redemocratização após o fim da ditadura militar, o PMDB foi se tornando sinônimo do modelo de coalização presidencial que nossa democracia adotou. Para o bem e para o mal.
A redemocratização se inicia com uma aliança entre o partido que encarnou a oposição à ditadura – o PMDB, ex-MDB – e uma dissidência do partido que apoiou o regime militar – o PDS, ex-Arena. Dissidência necessária para fazer com que o PMDB, minoritário, obtivesse os votos para Tancredo Neves derrotar Paulo Maluf no Colégio Eleitoral na sucessão do general João Figueiredo. A dissidência adotou o nome de PFL.
Tancredo vence as eleições, mas morre antes de tomar posse. Vira, então, presidente, José Sarney, alguém que até alguns meses antes era nada mais nada menos que o presidente do PDS, o partido que apoiava a ditadura. Melhor encarnação da famosa frase do romance Leopardo, de Lampedusa, impossível: “É preciso que algo mude para que tudo permaneça como está”.
O PMDB cresce no governo Sarney e vai se descaracterizando. A ponto de dele surgir uma dissidência, como protesto por essa descaracterização, o PSDB. Com o discurso de que buscava retomar os valores originais do PMDB, o PSDB segue como legenda social-democrata até chegar ao poder com Fernando Henrique Cardoso. Então, vai inchando e também se descaracterizando. Vira o que o ex-ministro das Comunicações Sergio Motta batizou de “partido-ônibus”, onde sempre cabe mais um.
A lógica da coalizão presidencial brasileira passa a ser, especialmente a partir de Fernando Henrique, a de alianças determinadas por interesses difusos que passam ao largo de projetos políticos ou ideológicos. Fruto de um sistema que tem uma infinidade de partidos, a grande maioria sem nenhuma ideologia. Os governos negociam os apoios em troca de cargos, verbas, etc. O que o PSDB, embora praticasse no poder sem maiores constrangimentos, batizou no seu último programa eleitoral de “presidencialismo de cooptação”.
Maior partido do país, com maior capilaridade e grande número sempre no Congresso, o PMDB virou...
http://www.blogdomagno.com.br/?pagina=2
Comentários
Postar um comentário