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No “Fora Temer”, muitos são só massa de manobra


Por Fernando Canzian – Folha de São Paulo
É de muitos "inocentes úteis" nas ruas pelo "Fora, Temer" e da maioria desavisada que a "esquerda-dinheiro-nasce-em árvore" e uma minoria protegida no setor público estão se valendo para barrar mudanças para tirar o Brasil da insolvência em que estamos metidos.
Nos "Fora, Dilma", "Fora, Cunha" e no agora "Fora, Temer" os problemas do país são os mesmos e estão claros, mas difíceis de enxergar sem um esforço mínimo. A saber:
Deficit fiscal (quando o governo gasta mais do que arrecada):
- Passou do equivalente a 2,5% do PIB na média dos últimos cinco anos para 10% em 2015. Isso fará com que a dívida pública (que o governo mantém para financiar o deficit) suba a 75% do PIB neste ano, um salto de 20 pontos em apenas três anos. O deficit previsto em 2016 é de R$ 170,5 bilhões, mais da metade por conta da Previdência.
Deficit previdenciário (diferença entre contribuições e aposentadorias):
- No setor público, no ano passado, os 978 mil aposentados e pensionistas geraram um deficit de R$ 72,5 bilhões. No privado, o deficit foi de R$ 86 bilhões, para 24 milhões de aposentados.
Para lidar com o deficit fiscal, ou se arrecada mais ou se cortam despesas. A solução até aqui tem sido o governo tomar dinheiro a juros no mercado e aumentar a dívida pública, daí sua explosão.
No deficit previdenciário, ou se aumenta a contribuição dos que vão se aposentar e dos já aposentados ou também se aumenta o deficit fiscal e a dívida para financiá-lo.
O limite para o aumento do deficit e da dívida é a confiança dos credores (quem tem dinheiro em fundos de bancos ou no Tesouro Direto) na capacidade de o governo continuar rolando esses "papagaios".
Para isso, o governo mantém os juros altos e atrai financiadores, que podem correr para ativos como o dólar se acharem o juro insatisfatório (o que revela o discurso oco de parte da esquerda que prega baixar o juro da dívida como solução para tudo).
Essa "bicicleta", porém, não vai longe ou fica de pé se o buraco da dívida continuar crescendo. E estamos quase caindo de cima dela.
O governo propõe dois vetores para os problemas:
1) Deficit fiscal: congelamento dos gastos até o limite da inflação do ano anterior. Se gastou R$ 100 neste ano e a inflação foi de 8%, o limite no ano que vem será R$ 108. Trata-se de fixar as despesas em um patamar relativamente alto, pois elas sobem acima da inflação há 20 anos.
Haverá cortes em saúde e educação? Não necessariamente, e a fiscalização "das ruas" poderia se concentrar nisso.
2) Deficit previdenciário: aumento do tempo de contribuição dos trabalhadores na ativa, estabelecendo uma idade mínima de aposentadoria. Se isso não for feito, é certo que os mais jovens que hoje protestam não terão como se aposentar no futuro.
Na Previdência, fala-se também na criação de um regime único para os setores público e privado.
Note-se que menos de 1 milhão de aposentados do setor público geram um deficit equivalente ao de 24 milhões de aposentados no privado.
Além de ganhar o dobro, em média, do que um assalariado privado e ter estabilidade no emprego, os servidores federais se aposentam com salário integral. No setor privado, recebem um salário mínimo ou uma fração do que ganhavam na ativa.
É notável que sindicatos de servidores e centrais como a CUT, que os representa, estejam à frente de boa parte dos protestos, que servem para intimidar parlamentares que votarão as propostas de mudanças.
Nos "Fora, Temer", é do jogo democrático xingar o presidente de golpista. E poderiam criticá-lo por muitas outras injustiças, como não apresentar nada para mudar a péssima estrutura de impostos regressivos no país, que sobrecarrega os mais pobres e favorece os mais ricos. Isso sim motivo de protestos.
Mas é preciso cautela para não se tornar massa de manobra das más causas alheias.

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