Pular para o conteúdo principal

Prisão de Cunha acelera batimentos cardíacos do país


Ricardo Noblat
A prisão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) produz dois efeitos no meio político – um imediato e outro de médio prazo.
O imediato: generaliza o pânico na República. O efeito de médio prazo: esvazia o discurso do PT de que a Lava Jato foi concebida para destruí-lo, e somente a ele.
Ao avanço da Lava Jato, que não tem data para terminar, correspondia o aumento de tensão dentro do Congresso e do governo, e também fora deles.
A prisão de Cunha leva o clima de tensão ao paroxismo. 
Ele não é apenas mais um político de peso a cair nas garras do juiz Sérgio Moro. Ele é “o político”, a levar-se em conta tudo o que sabe e tudo o que pode delatar.
Nada, por ora, se compara à captura de Cunha.
Delcídio do Amaral, ex-senador, ex-líder do governo Dilma no Senado, conhece por dentro do PT parte do que ali deu origem a escândalos. Sua delação serviu para que Lula e Dilma fossem denunciados por obstrução de Justiça.
Mas Delcídio, Lula e Dilma são o passado. O que acontecer com Lula e Dilma já não mais abalará o país. No máximo, causará barulho. E a vida seguirá em frente.
Uma eventual delação de Cunha poderá atingir gravemente o governo Temer. E isso, sim, teria potencial para embaralhar o presente e comprometer o futuro.
Cunha conhece os mais recônditos segredos do PMDB. E foi a peça decisiva do jogo que levou Temer ao poder.
Para chegar à presidência da Câmara, financiou a campanha de mais de 100 deputados do PMDB e de outros partidos. Montou uma bancada que, no seu auge, chegou a reunir pouco mais de 200 deputados. Era “o cara”.
Improvável que escolha amargar muitos anos de cadeia a negociar a revelação do que sabe. Ou de parte do que sabe. Mas é frio o suficiente para não fazer nada disso às pressas.
Quanto ao discurso do PT de vítima exclusiva ou preferencial da Lava Jato...
O discurso já não se sustentava, haja vista o envolvimento de tantos políticos de outros partidos com a roubalheira que a Lava Jato apura. A prisão de Cunha conspira para enfraquecê-lo de vez.
Moro que se prepare: aumentará a cobrança pela prisão de Lula. Sem a participação dele, segundo Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, em denúncia encaminhada ao Supremo Tribunal Federal, nada do que enoja o país há dois anos teria sido possível.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mapa das facções em presídios brasileiros

'Fi-lo porque qui-lo': aprenda gramática com frase histórica de Jânio Quadros

FI-LO PORQUE QUI-LO                       Vamos lembrar um pouco de história, política e gramática?                     O ex-presidente Jânio Quadros gostava de usar palavras difíceis, construções eruditas, para manter sua imagem de pessoa culta. Diz o folclore político que, ao ser indagado sobre os motivos de sua renúncia, em 1961, teria dito: "Fi-lo porque qui-lo".                     Traduzindo para uma linguagem mais acessível, mais moderna, ele quis dizer "fiz isso porque quis isso", ou, simplificando, "fiz porque quis".                     Esse "LO" nada mais é que o pronome oblíquo "O", que ga...

O milagre do Natal de 2017

Vinicius Torres Freire – Folha de S.Paulo "84 SERÁ igual ou pior que 83", dizia a manchete desta  Folha  no Natal de 1983, baseada em pesquisa com empresários. O Brasil vivia o pior triênio de recessão do século. Em 1983, a economia encolheu 2,9%. No entanto, em 1984, cresceria 5,4%. Um grande erro feliz de previsão. Pode acontecer em 2017? Hoje, dia de festa, vamos mudar um pouco de assunto. Vamos falar mais do espírito dos Natais de crises passadas. "Henry Ford confia num próximo melhoramento da situação econômica" era a primeira notícia da "Folha da Manhã" do Natal de 1931, outro fim de triênio triste da economia. Ford errou. A economia americana melhoraria apenas uma década depois, na Segunda Guerra. "Várias opiniões favoráveis à Constituinte" era a manchete política. O Brasil vivia sob o governo provisório da Revolução de 30. Golpe? Divertida mesmo era a publicação de mais um capítulo inédito de "Viagem ao Céu", de Mo...